Mulher

Nesse momento em que passamos por intensas metamorfoses, onde a violência estampada em gritos de guerra assalta nossos lares, invadindo espaços sagrados onde corre o sangue vermelho das nossas inquietações, mistérios e sabedoria , nasce terna e doce a imagem de uma mulher.

Ainda que fragmentada, partida aos pedaços do que restou da imagem da Grande Mãe com todas as contradições e todas as unidades da mãe terrível e da boa mãe, dançando a unificação das forças opostas que nos habita rumo a harmonia urobórica dos inícios e dos finais dos grandes ciclos da vida. Deméter, Hera, Perséfone, Atenas, Ártemis, Afrodite e outras deusas que trazem em si o arquétipo dessa Grande Mãe que um dia fora desmembrada para enfraquecer a força do feminino que pulsa em seu ventre na mesma vibração e compasso da terra.

E que tenhamos a coragem para enfrentarmos nossos medos e atirarmos nesse caminho em busca dessa unidade perdida, ao invés de simplesmente aceitarmos que estamos dividas e guardamos em nós signos partidos de unidades arquetípicas.

Temos em nós o mundo insondável dos mortos (Perséfone), o arco e flecha guerreira (Ártemis), a fertilidade (Deméter), a coragem de assumir e preservar os matrimônios (Hera), a espada da justiça e a coruja da sabedoria (Atenas), a força da sedução e das uniões amorosas (Afrodite). Somos todas essas deusas que juntas formam  a roda da vida que nos faz girar entre o absurdo e a graça da impermanência,

Algo nesse momento toca a minha memória e me faz sentir o cheiro forte das fogueiras acessas no meio da noite tendo a lua e as estrelas como testemunhas da magia e do encanto. Posso ver entre as labaredas aquele círculo onde se reuniam para dançar, cantar e contar histórias. Rituais onde as mulheres com seios nus faziam reverências às forças da terra e da natureza, a fim de que seus ventres se mantivessem fortes e sadios, dignos de abrigar uma semente de vida. E que essa vida fosse uma benção para todos aqueles que dela se aproximassem, para que a humanidade pudesse prosseguir seu caminho rumo a evolução. Rostos pintados com tinturas de flores, na barriga flores vermelhas, cor de sangue, simbolizando o poder da seiva da vida que corria em seus corpos. Coroadas com algumas folhas se deitavam ao pe´das grandes árvores, para simbolizar a espera da semente.

Que a chama dessas fogueiras não se apague dentro de nós!

Que os círculos mágicos das noites estreladas não se quebrem dentro de nós!

Que o colorido e o perfume das flores continuem a exalar nosso cheiro sobre a terra!

Que nossos ventres possam carregar as sementes da Mãe Terra!

Acreditem em si mesmas!

“Tentaram nos fazer acreditar que somos más e sujas. Tentaram nos fazer acreditar que somos bruxas. Sim, somos bruxas, e nossos feitiços curam, dedicamos a nossa vida em nome do milagre da criação. Nossa alegria e nossa liberdade são para muitos o nosso pecado. Ouvimos dizer que somos prostitutas, que trabalhamos pelo inferno; quando na realidade, trazemos Deus em cada um dos nossos talentos.

Somos mulheres livres, alimentadas e apoiadas pela força da Grande Mãe, que nos guardou em seu ventre, nos mantendo nessa terra  com bondade e sabedoria.

E que não tenhamos medo. Que nossas almas sejam fortes, sejam puras em nossas crenças e nas nossas virtudes. Sabemos quem somos. Somos filhas da lua, filhas do sol. Carregamos nossa sabedoria através dos tempos, nada nem ninguém poderá leva-la de nós. Pertencemos ao nosso espírito. Não precisamos que nos digam quem somos, porque reconhecemos nossos rostos e nossos corações, reconhecemos nossas falhas e nossa natureza. Somos férteis como essa terra que nos acolhe e livres como as tempestades que nada seguram. Carregamos o fogo da vida em nossa barriga e a nossa mente tem o peso de nossos conhecimentos.  Precisamos saber o que viemos fazer, e quando o Destino chegar, mostraremos a ele nossas missões cumpridas, e ele passará a ser o grande mestre, e nos iniciará nos seus mistérios profundos, e seremos as filhas iniciadas pelas mãos de Deus e da Virgem Maria. Nada poderá deter a nossa verdade, pois o próprio destino a carregará com ele, e a difundirá através do tempo, e nossas vozes jamais se calarão, não existirá morte para nossa busca, nem para o nosso encontro.

Sejamos fortes. Lembremos da nossa força. Somos fortes porque somos livres. Livres para amar, para dançar, para pensar, e nada nem ninguém, por mais que nos assuste vai nos prender ou acorrentar nossa alma. Nunca deixe o medo ou o passado torturar seu coração. Somos mulheres fiéis a nós mesmas. O medo é a maior arma da escuridão. Ele te acua e te leva. Nunca permita que ele seja mais forte que você”.

Que sejamos corajosos, homens e mulheres para enfrentarmos todos os obstáculos que dificultam o acesso ao nosso FEMININO, porque independente do sexo, trazemos dentro de nós a semente do feminino e do masculino em uma só unidade. E guardando as armas que nos separam dessa integração perfeita que trazemos em nossa essência, erguemos as bandeiras de paz nesse mundo que clama pelo amor e fraternidade universal.

Celebremos hoje o cântico da nossa Grande Mãe, essa terra que está sob os nossos pés, para que ela possa cantar para todos nós a canção do nosso EU SOU!